
A escritura pública formaliza o negócio quando essa forma é exigida ou adotada; a matrícula identifica o imóvel e reúne os atos registrais; o registro da aquisição é o ato que efetiva a transferência na compra e venda. A certidão permite consultar o conteúdo certificado pelo serviço registral. Esses conceitos se complementam, mas não significam a mesma coisa.
Entender essa diferença ajuda a responder uma pergunta frequente: “Assinei a escritura e recebi as chaves. O imóvel já está no meu nome?” Para verificar a situação, é preciso conferir o título apresentado e se o registro correspondente foi efetivamente realizado.
Escritura, matrícula, certidão e registro em uma comparação
| Elemento | Função principal | O que não deve ser presumido |
|---|---|---|
| Escritura pública | Documentar o negócio perante o Tabelionato de Notas | Que a propriedade já foi transferida no registro |
| Matrícula | Identificar o imóvel e receber seus registros e averbações | Que a compra mais recente já foi lançada |
| Certidão da matrícula | Certificar o conteúdo registral na forma e data de sua emissão | Que nenhuma alteração poderá ocorrer depois |
| Registro da aquisição | Fazer ingressar o título e produzir os efeitos próprios do ato | Que regulariza automaticamente questões de construção ou parcelamento |
Uma escritura pode estar formalmente correta e ainda não ter sido apresentada ao Registro de Imóveis. Também é possível encontrar uma matrícula sem a última aquisição ou sem a atualização de uma construção. A análise identifica a etapa que falta e suas consequências.
O que é a escritura pública?
A escritura pública é um instrumento lavrado pelo tabelião de notas. Na compra e venda, reúne a identificação das partes e do imóvel, as declarações e as condições do negócio, conforme os requisitos aplicáveis.
O artigo 108 do Código Civil prevê, salvo disposição legal em contrário, a escritura pública como requisito de validade dos negócios que visem constituir, transferir, modificar ou renunciar a direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no país. Por isso, não é correto afirmar que qualquer compra exige exatamente o mesmo documento, nem que estar abaixo desse limite dispensa os demais requisitos do negócio e do registro.
Há instrumentos particulares que a legislação admite com efeitos próprios, como os previstos em determinadas operações imobiliárias reguladas pela Lei 9.514/1997. A exceção precisa decorrer da lei e do enquadramento real da operação. Reconhecer firma ou assinar digitalmente um contrato não cria, por si, essa exceção.
O que é a matrícula do imóvel?
A matrícula é o registro individualizado do imóvel no serviço competente, com sua identificação e os atos que nele são praticados. Pode conter descrição, localização, titularidade, direitos constituídos, restrições e alterações posteriores.
Seu número não se confunde com inscrição de IPTU, cadastro rural, número de instalação de energia ou endereço postal. Esses dados podem ajudar a localizar o bem, mas pertencem a sistemas com finalidades diferentes.
Imóveis com histórico antigo podem demandar a consulta de transcrições e outros elementos do acervo registral. Não encontrar imediatamente um número de matrícula não prova que o imóvel nunca teve registro ou que determinada pessoa seja sua proprietária.

Registro e averbação também são diferentes
O registro recebe atos para os quais a lei prevê essa forma de ingresso, como a aquisição decorrente de compra e venda. A averbação dá publicidade a determinadas alterações ou ocorrências relacionadas ao registro, como construção, demolição e outras hipóteses legais.
Assim, registrar a compra e averbar uma ampliação são providências distintas. Uma pode estar concluída enquanto a outra permanece pendente. O enquadramento do ato deve seguir a legislação, e não a expressão usada informalmente pelas partes.
O conteúdo sobre construção não averbada aprofunda essa diferença quando a casa existente não corresponde à descrição registral.
Por que a escritura assinada pode ainda não estar registrada?
Entre a assinatura e o registro, o título precisa ser apresentado e submetido à qualificação registral. Nessa análise, podem ser identificadas pendências relativas às partes, ao imóvel, à continuidade das transmissões ou aos documentos necessários.
O protocolo de um título não deve ser confundido com a conclusão do registro. Se houver exigências, é importante compreender seu conteúdo e o tratamento cabível. Uma exigência não significa, automaticamente, impossibilidade definitiva de regularização; tampouco deve ser ignorada.
Quando o ato estiver concluído, a conferência da certidão correspondente ajuda a verificar se a aquisição foi lançada de acordo com o negócio realizado. Guardar apenas recibos ou protocolos pode dificultar a identificação da etapa efetivamente alcançada.
O que conferir na documentação antes de uma decisão?
Comece pela correspondência entre imóvel, partes e título. Endereço semelhante não é suficiente se a descrição ou a área apontar para outro bem. Confira também os atos posteriores e as restrições relevantes à operação.
Uma sequência útil de perguntas é:
- Qual imóvel está identificado no contrato ou na escritura?
- Quem consta no registro e quem pretende transmitir?
- O título anterior da pessoa que transmite ingressou no registro?
- Há ônus ou restrições que precisam ser analisados?
- A construção e a área descritas correspondem à situação conhecida?
Essa leitura deve ser feita em conjunto. Um documento isolado pode não revelar pendências presentes em outro.
Exemplo hipotético: escritura pronta, transferência pendente
Uma pessoa recebe uma escritura pública, muda-se para a casa e passa a pagar os tributos. Anos depois, uma certidão revela que a escritura não foi registrada. O primeiro passo é analisar o título e a situação registral atual, identificando as providências necessárias ao seu ingresso.
Se a casa também foi ampliada, a documentação da obra pode exigir avaliação separada. Não é adequado prometer que um único pedido resolverá aquisição, construção e eventuais divergências de área.
Perguntas frequentes
A matrícula tem prazo de validade?
A matrícula é o registro do imóvel. A certidão é o documento emitido para certificar seu conteúdo. A atualidade exigida da certidão depende da finalidade e das regras aplicáveis à operação.
IPTU em meu nome prova que a compra foi registrada?
Não. O cadastro tributário e o registro têm funções diferentes. A aquisição deve ser conferida no Registro de Imóveis.
Contrato particular nunca pode ser registrado?
Essa afirmação é incorreta. Existem títulos particulares admitidos por lei. A análise precisa verificar o tipo de negócio, a forma exigida e os requisitos de ingresso.
Uma escritura antiga precisa ser refeita?
Não se deve presumir isso. Primeiro se examinam o documento, os atos posteriores e eventuais exigências. A solução pode variar conforme o problema identificado.
Documentos claros para uma decisão informada
Ao procurar orientação, informe quais documentos possui e qual é seu objetivo. A atuação da Vizentini Advocacia em regularização imobiliária parte da leitura conjunta desses elementos para delimitar as providências pertinentes.
Base jurídica: Código Civil, arts. 108 e 1.245; Lei de Registros Públicos, especialmente arts. 167, 176 e 195; Lei 9.514/1997, art. 38.
Conteúdo informativo da Vizentini Advocacia. A definição das providências depende dos fatos, dos documentos e das regras aplicáveis ao caso.